domingo, 15 de agosto de 2010

Domingos. Preciso tê-los por perto, enquanto arrasto móveis para ocupar a solidão.
Invernos. Obrigam-me a ascender uma lareira na sala, enquanto meus pés hipotérmicos garantem espasmos.

É tudo que tenho para dizer em domingos de invernos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Danica

Seu cigarro está pra acabar, assim como o turno do astro sol, que vai se pondo ao fundo. Uma visão privilegiada para quem mora no apartamento número 94, da torre 1. Condomínio Joy Dimension. Um dia já foi uma bela réplica dos prédios da famosa orla de Miami Beach. Não haver uma praia ali, era mero detalhe. Já foi um prédio cor salmão, que pela noite, abandonava a cor clara, para gritar com seu magenta neón. Mas isso foram outros tempos e ela nem era residente naquela época. O portal do prédio, estava velho e sujo. Apenas chegando muito perto, era possível uma leitura do pórtico. Era um arco em cor de madeira e o letreiro também da mesma cor. Porém, de noite era outro grito neón, dessa vez verde. Danica lembra ter lido aquilo apenas uma vez, quando chegou com suas malas, acompanhada de três amigas. Todas traziam bagagens e sonhos. As amigas se foram com o tempo e os sonhos também. Eles não caíram na promessa do pórtico do condomínio: “Uma outra Dimensão!”. Bastaram algumas semanas e o apartamento tornou-se mera extensão da realidade. As quatro jovens descobriram a vida no Lacienda. E que uma vez vivendo ali, não escapariam de formas santificadas. E, fora Danica, todas as outras saíram de lá com seus pecados em busca do paraíso. Danica preferia viver no inferno com seus próprios demônios e os dos outros. Não faria como Ana, que foi mandante do assassinato da esposa de seu marido, para que assim, pudessem se casar e ele a sustentasse. Nada contra Ana, as duas ainda se falam normalmente, foram mais amigas e hoje se respeitam. Mas Danica não colocaria tanto esforço por uma “estável”. Não. Lana virou a rainha branca. Começou a vender cocaína durante as noites, entre um intervalo de um programa e outro. Ficou “famosa” demais pela cidade, resolveu mudar para Europa. Com os contatos certos, o corpo quase perfeito e sua habilidade com facas, logo tornou-se “La Reine Blanche”. Engraçado era que ela não usava drogas. Quando cheirou pela primeira vez, enquanto estava em um hotel em Nice, comemorando a maior venda de sua vida, ela teve uma arritmia cardíaca e morreu. Barbie, foi a primeira a sair. Usou de seu corpo para pagar bons estudos. Hoje é uma vice-presidente da maior imobiliária do país. Nunca mais ela pisou novamente em Lacienda e fez uma visita para Danica. Todas foram viver com seus pecados no paraíso, Lana já na versão 2.0. O cigarro de Danica atinge o filtro, o sol se foi, a noite chega e o celular pode tocar a qualquer momento. Ela descola o tórax da janela e desliza o vidro que a fecha. Não há mais as cortinas floridas que ela trouxe de sua casa. Certa vez bebeu tanto, no nascer do sol, que ascendeu um cigarro e o foi ver a aurora do dia. Distraída, deixou o cigarro ao lado do braço direito. Adormeceu ali mesmo e só acordou com o cheiro de tecido queimado. Queimou o único resquício de sua adolescência. Porém, ela realmente não ligava para isso. Não mais. Com a ajuda das luzes da noite, ela tateou procurando o interruptor e o empurrou para cima. Uma luz fraca surgiu no teto do apartamento. Era entre o amarelo e o laranja, não se decidia. Apesar de fraca, foi suficiente para Danica avistar o sofá. Estava envolto em um lençol azul marinho e dividia a sala apenas com a TV. Haviam mais coisas ali, na época de ouro. Quando, uma a uma, as meninas foram saindo, algumas coisas também foram. Mas a maioria, Danica trocou por drogas e dinheiro. Dinheiro que logo virou bebida. Agora ela podia contar nos dedos as coisas que haviam no apartamento. Sofá velho, lençol azul marinho, pequena mesa retangular, que era suporte da TV usada e velha. Antes, era uma televisão bem mais nova, muito bonita. Virou um saquinho de açucar, com resquícios de cocaína. Depois de alguns dias, a abstinência do quadrado mágico, foi maior do que a abstinência de crack e Danica conseguiu a velha televisão usada, ficando assim, estável. Havia uma cama arrumada, mas raramente usada. Danica gostava de dormir no sofá, assistindo ao talk-show do Skinny. Ao lado do sofá, um cinzero preso em um pedestal. E era só, mais nada. Danica deitou-se ao sofá e procurou algo com sua mão próxima às nádegas. Não encontrou, pois aquilo não existia mais. Levantou-se, foi até a TV. Apertou o botão preto que estava próximo à pequena luz vermelha. A princípio não houve imagem, apenas o som de risadas falsas. Pelo horário, era o seriado “Missy Mississipi”. Mais uma reprise. Era tão velho, preto e branco, sem graça, de tanto que fora reprisado. Danica odiava o seriado. Voltou ao sofá e deitou-se novamente. A imagem surgiu de repente na tela preta. Sua calcinha estava com o lado esquerdo sendo engolido por suas flácidas nádegas. Ela meteu a mão por debaixo da calça, ajeitou a roupa de baixo e ficou assistindo “Missy Mississipi”. Riu de algumas piadas, ascendeu mais um cigarro. Começou a escutar tiros do lado de fora, carros passando correndo. Uma noite quente de verão. O mundo se agita o triplo do habitual. Sentiu vontade de urinar. Levantou-se e foi até o banheiro. Baixou as calças com força, para ter certeza de que levava a calcinha junto e sentou no vaso limpo. Era uma casa limpa, apesar da precariedade do prédio e da falta de móveis. Aliviou-se, tragando seu cigarro. Não era o favorito. “Ei, Lucky, me vê um maço de Liberty”, ela perguntou. “Jan, sinto muito xuxu, mas acabou meu estoque de Liberty”. Ela pensou, que deveria parar de comprar cigarros com Lucky. Ele já foi um bom revendedor, mas perdeu espaço nos últimos anos. “Ele não tinha tanta sorte assim” ela pensava enquanto a urina dourada descia de sua vagina. “Então me da um Boulevard mesmo”. Ela não suportava um Boulevard. Até o nome, ela não suportava. Gosto ruim, cheiro ruim, tudo ruim. “Por que merda eu pedi um Boulevard, então? Eles são mais baratos Dani, você sabe disso.” Terminou o cigarro e terminou de urinar. Danica levantou-se, subiu a calcinha e depois sua calça preta. Puxou a descarga, enquanto puxava outro cigarro do maço. Tossiu. “Isso que dá fumar, Danica. E ainda por cima, fumar um maço de Boulevard.” Era o último. Ascendeu-o e depois foi lavar as mãos. Jogou uma água no rosto e tentou se olhar no espelho, mas este estava todo trincado. Haviam dez Danicas ali e ela ficou com preguiça de analisa-las. Andando vagarosamente para seu sofá, ela assistia de longe os créditos do seriado, mas não ficou nem feliz e nem triste com isso. De sopetão, a caixa preta apagou-se. Danica suspirou, como quem já se cansou de algo. Já haviam dias em que a TV estava com esse surto de desligar-se sozinha. Continuou sua caminhada desprenteciosa. Quando estava à frente do aparelho, agachou-se e viu-se com o reflexo da tela. Notou alguns furinhos na sua face. Não muitos, mas um sinal da idade. O cabelo estava preso com um coque. A cor oscilava entre um loiro falso e o castanho escuro veridadeiro da raiz. Os olhos, pequenos e escuros. Usava um top cinza decotado. Apalpou os seios, para certificar-se de que o implante continuava ali. Ainda imaginava que um dia, a coisa ia escapar dali e sair quicando pela sala ou pior, durante um programa. Ela ainda travava quando um cliente, afoito por peitos, metia os dentes e os apertava. Estavam firmes, do jeito que ela e os outros gostam. Estava a mesma coisa de sempre, nenhuma novidade. Ligou a TV de novo, tornou a deitar-se ao sofá, fumando o último Boulevard. Agora, o programa era “Lei da Sobrevivência”. Pequenos documentários de pessoas que sobreviveram à uma provação horrível da vida. Danica nunca via algum programa sobre sobreviventes do Lacienda. Quem sabe hoje? É, ela tinha algumas pequenas expectativas da vida que a faziam esquecer certos absurdos. O programa estava pra começar, a abertura no seu encerramento. Quando o narrador pôs-se a falar, o celular tocou. Hora de trabalhar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Calculista - Pt.2 (e final)

O pátio onde eu realizava os desafios, estava sempre cheio. Uma massa de toneladas, espalhada em pedaços de quilos, tentava retirar-me de minhas circustâncias. Sempre em vão. Mal sabia eu que ali no meio, minha ruína contemplava o céu, como que dialogando com os deuses, o plano de destruição do meu ser. Porém, quem encontrou o algoz, fui eu próprio. Fui em quem libertei a fera. Seu corpo era firme e jovem. Os olhos, que pareciam um reflexo do céu acima, mas também poderiam ser janelas para um novo e virgem oceano. Os cabelos eram feitos de raios solares. Fêmea, com seus seios deformando um vestido de cores mil. Algo naquela fêmea sacudiu meu ser. Ela parecia entediada. Era cúmplice de meus sentimentos! Percebi ao olhar detalhado! Merecia uma devida atenção e diversão. Mesmo tendo o destino da não vitória, que eu já havia traçado. Ao menos, poderia notar-me. Chamei-a por seus adjetivos (linda jovem, olhos de Poseidon, cabelos de Apollo!) e prontamente, ela mirou em mim. “Deseja um bocado de distração? Será que consegue propor-me o cálculo inssolucionável?” Ela começa a caminhar em minha direção. “Sou o mestre do cálculo e não há quem me derrote”. Ainda mirando em mim, continuando a andada. “Dou-lhe a chance de... tentar derrotar-me c-com a-apenas uma p-pergunta” Pelos deuses! Ela está a um palmo de mim! Coloca os braços envolta de meu pescoço! “J-jovem, q-que é isso?” Seus lábios falam com os meus em línguuas jamais compreendidas. Estou em êxtase. Ela para. Olha-me nos olhos novamente, com aquele olhar que agora amo e temo. Esmoreci. Ela simplesmente, sussurou:

- Você consegue contar as batidas de seu coração?

Não consegui, falhei. Derrotado, por um beijo.

domingo, 1 de agosto de 2010

O Calculista - Pt.1

Crônica feita durante uma madrugada de trabalho. Em pequenas partes para leitores preguiçosos como eu.

O Calculista

Eu era um calculista. Calculava tudo e todos. Tinha os cálculos precisos ao fim do mês. Formei-me em cálculo, sendo um dos destaques da turma de 63. Papai sorria orgulhoso. Mamãe chorava descompassada. Meu irmão mais novo, olhava intrigado e inspirado. Logo, era um funcionário de uma multinacional, em cargo de base. Pacientemente calculei precisamente em quanto seria promovido. E fui calculando, tudo e todos. Alguns, com certa modéstia, denomiram-me mestre do cálculo. Título que aceitei de bom grado.
Certo dia, já cansado de calcular meus louros por contribuição empresarial, criei um passatempo interno para os funcionários da (já minha) empresa. A proposta era: trazer o cálculo incalculável para o mestre resolver. Obviamente, o prêmio para quem o fizesse teria de ser relevante e nivelante à minha supremacia. Daria toda a minha riqueza para o que me derrotasse. Foram anos, tentativas frustradas. Pobres coitados, homens e mulheres, jovens e velhos. Calculei tudo e todos. Percebia onde seus previsíveis problemas tentavam me levar, logo eu preparava um bote, um exímio predador. Eu era um poderoso alicerce. Imóvel e reluzente.
Pois veio a tempestade, que estremeceu e escureceu a minha matéria.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Conto - "Matilha Assassina"

Pediram e aqui vai a primeira parte do meu conto.

Sou investigador particular. E tenho apenas um cliente. Meu cliente tem um gosto peculiar pelo inusitado, inexplorado, inexplicável. Esse gosto eu definiria como um desespero pela anormalidade. A rotina consumiu parte da sanidade e contato social do ser. Com as investigações e uma certa habilidade com a escrita, consigo escrever boas histórias para a coluna de uma famosa revista independente. Histórias como a que segue logo abaixo.

A história que se segue, pode ser um tanto fantasiosa. Até o narrador mais divino não poderia acreditar em tal fato. Sem dúvida é um evento aquem da normalidade. Por esse motivo ele será a fabula desta hora.
Conhecemos um tanto de contos que envolvem animais. Temos toda superstição que envolve o gato preto e o azar. Mas não me lembro de algum conto envolvendo os meigos cães, amigos do homem, com o macabro. Curiosamente nos meus registros encontrei um artigo de jornal sobre a morte de um jovem estudante universitário. Morto a mordidas de cachorro. A descrição foi o que mais chamou atenção no caso. Haviam mordidas de vários tipos no corpo do garoto, o que levou-se a concluir que não foi apenas um cachorro que promovera o ataque, mas sim, uma matilha. Várias raças foram identificadas. Desde poodles até mordidas de são bernardo reduziram uma vida a ossos e pedaços da carne pareciam ter sido arremessados para longe. Sim, não houve consumo da carne, apenas o crime. Parecia intencional. Procurei saber mais sobre o crime e decidi investigar as testemunhas. A perversidade humana poderia ser motivo para o crime? Levando-se em conta o histórico de cães, é bem possível que sim. O que me intrigou mais, foi o ataque em grupo.
Algumas horas depois e com algumas perguntas, tracei o perfil do garoto. Nunca teve nenhum sinal de perversidade. Amoroso, gentil. O único contraponto era o de ser um pouco recluso, reservado. Havia a namorada e as ex namoradas do jovem. Disseram que ele não possuia fantasias sexuais e nem demonstrava sinais de raiva enrustida. Na verdade, ele demonstrava uma certa tristeza e melancolia. Uma informação me chamou ainda mais atenção: o garoto tinha um cachorro. Um maltês pequenino e branco como a neve. Seu nome era muito sugestivo também. Snow. Os que conheciam e frequentavam a residencia do estudante sempre falaram que ele e o cão eram muito próximos. Quando estavam juntos havia o censo de cumplicidade e respeito. O cão nunca agredia ninguém gratuitamente.
A minha busca por algo inusitado diminuia com essas informações. Entretanto, quem esta habituado a fatos estranhos, sabe que onde há muita normalidade, o acontecimento esta relacionado com o algo que foge a compreensão do ser humano. A investigação iria continuar e encontraria os fragmentos que levariam ao fator determinante. Assim, deixei de lado o objetivo final para focar em outras questões. Que lugares frequentava o jovem estudante? Será que tinha uma vida secreta? Será que sua morte fora assassinato encomendado? Que fatores levariam um ser humano a ser brutalmente atacado pelos seus, assim ditos, melhores amigos?
Quanto a primeira e segunda perguntas, as respostas foram encontradas facilmente. E foram um tanto decepcionantes. O garoto vivia numa rotina. Acordava, estudava e voltava para casa. Durante as noites, dava um passeio com o pequeno Snow e, claro, descansava para o outro dia. Talvez a rotina não pudesse responder por agora os motivos do crime. Crime? Será que ainda cabe um acidente na questão? Deveria levar em conta? Sim. Toda possibilidade é válida. A questão da morte ser mandatória, também parece esvair-se mediante os elogios e círculos de amizade que envolviam o jovem. A maioria das pessoas apreciavam a compania. Não me parecia haver inimigos possíveis. Haviam uns e outros que não gostavam de certa postura, coisa comum. Nenhum deles seria capaz de arquitetar um plano macabro com matilhas de diferentes raças de cães. Durante uma das entrevistas investigativas com uma amiga do rapaz, tive outra possibilidade de encontrar mais informações por conta. "Não se sabia muito sobre a família dele, ele não dizia muito sobre a família, não". Então resolvi mudar o foco, já que continha muitas informações do cotidiano e da vida presente da vítima. Resolvi investigar o passado, até então desconhecido.

terça-feira, 18 de maio de 2010

For Ian

You could have lived.

You could have hold your impulses and break the Isolation.

You could have lived another Twenty Four Hours.

You could have wasted your time with those Dead Souls.

You could have listened to The Sound Of Music just one more time.

You could have lived another three Decades.

But all you would have seen is the Disorder.

And the world breaking like Glass.

You would have seen a world on a constant Day Of The Lords.

A world afraid of exposing it's Failures.

So tonight we make this Ceremony.

We celebrate The Eternal you became.

We understand that the Atmosphere was too much for you.

We understand why Love Will Tear Us Apart.

IC.JD. 18/05/1980

domingo, 16 de maio de 2010

Medo de Ninguém

Eu não quero que ninguém se aproxime de mim, porque já tô cheio.
Quero que ninguém vá pro inferno porque é o lugar que se merece.
Ninguém vem e tenta mudar a minha atitude. Ninguém adora me desmerecer.
Por quê?
Ninguém diz que me ama. Mas eu sei que não é verdade.
Ninguém ama toda a sociedade doente que se construiu durante anos. Ninguém precisa de ninguém para sobreviver. Ninguém é parasita. Ninguém mata. Direta ou indiretamente.
Se você é como ninguém, ninguém é você.
Tenho medo de ninguém.
Não tem nada mais triste que ninguém. Eu sou ninguém.

Ou sou alguém?